Construção virtual

Para ganhar em cronograma, precisão e custos, construtora investiu em tecnologia BIM. Principal desafio foi modernizar a cultura empresarial, envolvendo arquitetos e projetistas terceirizados.

Adolfo Blasco Ribeiro Adolfo Blasco Ribeiro é formado em Análise de Sistemas pela Universidade Mackenzie e já atuou como arquiteto de soluções na T-Systems do Brasil e como engenheiro de aplicações na Bentley do Brasil. Atualmente, é gerente de TI da Matec Engenharia e Construções, onde coordenou o projeto de extensão do uso da tecnologia BIM nas áreas de planejamento e orçamento.

O que motivou a implantação do BIM na Matec?

Tivemos nosso primeiro contato com a tecnologia em 2008 quando o presidente da empresa, Luiz Augusto Milano, esteve nos Estados Unidos. Na época, a principal motivação para a implantação da tecnologia era a necessidade de compatibilizar projetos. Com o BIM, é possível fazer modelos tridimensionais das diversas disciplinas e verificar e eliminar as interferências entre elas. Com esse objetivo inicial, a implantação do BIM foi finalizada em 2009. No ano seguinte, fui contratado para estender o seu uso para as áreas de planejamento e orçamento.

E quanto à orçamentação?

O objetivo principal era compatibilizar os projetos, mas, como consequência, a partir do momento que se começou a modelar, foi possível retirar dados de levantamentos dos quantitativos dos modelos na fase de projeto para verificação de orçamentos. Nas propostas, fazemos a modelagem em 3D para levantamento de quantidades de fundação, estrutura e arquitetura, mas não levantamos quantitativos dos sistemas. Essa tarefa é feita por terceiros por meio de estimativas, muitas vezes por falta de projetos.

Como o BIM impactou, em termos de tempo, os processos de orçamentação?

Podemos citar o exemplo do projeto de uma agência bancária, cujo levantamento de quantitativos da fundação do CPD, que em processo convencional levaria entre um dia e meio a dois dias, foi feito em apenas quatro horas com o BIM. A redução em tempo foi de 70%. Vale ressaltar que esses bons índices se replicam na arquitetura, estrutura e demais projetos.

E com relação ao custo global da obra, dá para observar impactos?

É difícil levantar esse dado, pois não conseguimos mensurar os erros que são evitados devido à simulação. Ou seja, como nada será deixado de lado, então não haverá impacto no custo final. Quando é feito o modelo para orçamento, é preciso refletir o projeto conforme as exigências da licitação. Quando se vence a licitação, é possível executar simulações de trocas de componentes como pré-moldados por estrutura de aço, por exemplo. Com essa simulação, é possível checar os benefícios no cronograma e no custo.

E quais as vantagens do BIM ao levantar quantitativos?

Há duas vantagens básicas: com o BIM é possível fazer quantitativos precisos - uma vez que o modelo reflete exatamente o projeto - e também eliminar erros. Com a tecnologia, é possível verificar se o orçamento está bem dimensionado. Nessa etapa, é comum que itens e componentes importantes, como por exemplo o piso de determinada área, sejam esquecidos. No BIM, essas falhas são facilmente notadas, pois ele possibilita a checagem visual­ do modelo construído. Já no orçamento tradicional, tudo que existe é a planilha e o projeto 2D, desconectados entre si, dificultando o trabalho de checagem.

Qual foi o montante investido pela Matec em todo o processo de implantação do BIM?

Ao todo, foram investidos R$ 600 mil. Mas vale ressaltar que começamos a estudar o BIM em um grupo de três pessoas, que ficaram durante o período de implantação - de três a seis meses - totalmente fora de produção. Então, além da compra dos softwares e licenciamentos, temos de contar também os custos das horas de treinamento, estudo e consultoria das pessoas envolvidas.

Houve necessidade de investir em hardware?

Tivemos de fazer investimentos por conta da necessidade de maior capacidade de processamento e de inclusão de placas de vídeo, o que exigiu máquinas mais robustas. Como optamos pelo modelo federado - no qual o edifício principal é modelado, mas há vários pequenos arquivos separados, contendo a arquitetura, elétrica etc. de cada pavimento - foi possível deixar os arquivos muito mais leves, auxiliando assim quem modela os projetos e exigindo menos do próprio hardware.

Como foi a dinâmica de implantação da ferramenta dentro da empresa?

Acabei treinando o pessoal e dando consultoria durante essa etapa. Na consultoria, apenas indicávamos o que teria de ser feito para implementar a tecnologia. Na prática, um dia de consultoria gerava de três a quatros dias de trabalho a ser executado até o próximo encontro. Vale ressaltar que a consultoria foi dada tomando como base um projeto piloto e, ao longo da execução desse projeto, criamos aos poucos a inteligência do BIM dentro da empresa, com todas as classificações, como por exemplo, itens de fundação como estacas, sapatas, baldrames, blocos etc.

Quais foram os principais desafios enfrentados durante o processo?

No caso da Matec, a implantação aconteceu de forma muito mais fácil do que se esperava porque as pessoas envolvidas já tinham mais intimidade com tecnologia. Algumas já utilizavam 3D e outros softwares de modelagem 3D. Envolvemos pessoas mais jovens no processo. A liberdade de trabalhar em cima de um projeto piloto, tomando como base uma edificação já construída, também facilitou a implantação. Não tivemos a obrigação de entregar nada para a produção. O pequeno grupo de BIM criado pôde trabalhar sem grandes cobranças de resultados. Esse projeto, inclusive, apresentou algumas incompatibilidades e interferências de disciplinas durante a execução. Usamos o mesmo projeto executivo para fazer o modelo, detectando os mesmos problemas levantados em campo.

Os projetos complementares são terceirizados ou feitos dentro da Matec?

Recebemos o projeto de arquitetura do cliente final e, a partir dele, contratamos os demais projetos complementares como os de estrutura, elétrica e hidráulica. Na época em que começamos a implantar o BIM, não havia escritórios atuando em 3D. Na verdade, ainda hoje não há muitos que operam com a tecnologia. Como alternativa, optamos, então, por receber os projetos em 2D e modelá-los dentro da Matec. Verificamos as compatibilidades entre as disciplinas e produzimos um relatório de incompatibilidades. Em um primeiro momento, enviávamos esse documento para os projetistas a fim de solucionar os problemas. Mas, a partir do momento que desenvolvemos nosso próprio know-how, passamos a enviar esses relatórios já com as sugestões de solução, a partir do nosso modelo. O projetista, então, só aprova a solução e nos reenvia o projeto com uma nova revisão, já contemplando nossas sugestões.

E não houve perda de produtividade nessa etapa, por conta da necessidade de modelar os projetos em 2D?

Na verdade, acabamos criando um novo processo, que inclui horas para modelagem e para verificação de incompatibilidades dos projetos complementares. Mas, no caso de estruturas, por exemplo, alguns projetistas usam softwares da TQS, que geram saída em 3D em formato IFC (Industry Foundation Class). Quanto aos sistemas, os projetos são mais complexos para modelar e poucos projetistas utilizam softwares em 3D. Também é muito mais fácil modelar uma estrutura do que um projeto de elétrica. Por isso, também optamos por modelar o que é estritamente necessário. Isso porque, para efeito de compatibilização, detalhes como caixas de força não interferem na modelagem.

E como foi a adaptação dos projetistas ao novo processo?

Não tivemos problemas com os projetistas parceiros, que aderiram rapidamente aos processos. Os relatórios são feitos em arquivo PDF com conteúdo em 3D do modelo e focam as ocorrências, que são discutidas por telefone, eliminando a necessidade de reuniões pessoais. A troca de informações é mais rápida.

A Matec está usando o software da Bentley. Há problemas para compatibilizar com outros projetos feitos, por exemplo, com o Revit?

Não existe nenhum problema, pois o IFC (padrão internacional) é um formato neutro para a troca de informações em plataformas de diferentes fabricantes. Hoje, 10% dos projetos de arquitetura que recebemos foram feitos em Revit. Mas o projeto nos chega, pelo cliente, em 2D. O arquiteto não costuma enviar o modelo em 3D. Existe temor no mercado de que o envio do projeto em 3D exponha a biblioteca, com todas as definições das famílias, criada em cada escritório. Esse também foi um dos motivos por que escolhemos o software da Bentley, pois essa plataforma separa a geometria da inteligência, evitando que os dados fiquem expostos.

Como foi o processo de criação da biblioteca BIM?

Utilizamos parte das informações do próprio sistema, pois todos os softwares trazem elementos como janelas, portas, metais sanitários etc. O que faltava modelamos ou importamos de outros formatos para incorporar à nossa própria biblioteca. Todas as classificações e famílias foram criadas por nossa equipe.

Passados três anos desde que foi implementado, que análise faz das dificuldades enfrentadas no processo?

A maior complicação em uma implementação como essa sempre são as pessoas. Quem modela, entende mais facilmente as mudanças, mas quem atua na gestão, por exemplo, nem sempre tem essa percepção. O gestor está focado no cronograma da obra e acha que no processo convencional é mais rápido. Todos devem estar convencidos do que tem de ser feito e o processo de implantação tem de ser mandatório.

Hoje, a cultura do BIM está bem absorvida na Matec?

Sim, mas ainda há casos isolados nos quais atrasos impedem que alguns projetos sejam modelados. Tivemos um caso, por exemplo, onde o projeto de ar-condicionado de um térreo não pôde ser compatibilizado por falta de tempo. E foi justamente esse pavimento que apresentou problemas.

Além do BIM, a Matec também aposta em outras tecnologias de ponta, como o laser scanning. Como foi a experiência com o uso desse equipamento?

Usamos o laser scanning no projeto de ampliação do Shopping Grand Plaza, em Santo André, que se daria entre outros três edifícios (um hipermercado, uma agência bancária e o próprio shopping). Além disso, o plano de ataque da obra começava na parte oposta do shopping e, como usaríamos pré-moldado, precisávamos ter certeza de que a locação da obra seria precisa, evitando, dessa forma, qualquer tipo de problema durante a montagem das vigas.

Como funciona o equipamento?

Nesse caso em particular, escaneamos todas as fachadas dos prédios a fim de levantar a localização exata de cada elemento. Cruzamos essas informações com os dados topográficos, o que permitiu a correta locação das estacas e, com isso, viabilizar a obra. O laser cumpre a função de fazer um modelo 3D, refletindo exatamente o que está construído e obtendo-se um "as built" por meio do levantamento de medições exatas.

Optaram por alugar ou comprar o equipamento?

Optamos por alugar por R$ 15 mil. A decisão se mostrou vantajosa, pois o levantamento pelo procedimento tradicional nos tomaria dois dias. Além disso, essa etapa teria de ser feita, obrigatoriamente, durante o dia, com o shopping funcionando e com trânsito de carros e pessoas envolvido no processo. O laser scanning permite que o trabalho seja feito sem luz alguma e em questões de horas. No caso citado, realizamos essa tarefa em uma madrugada de sábado para domingo. Outra vantagem do equipamento é a precisão. No processo convencional, prevemos os pontos necessários para o levantamento do que está construído; já o laser scanning escaneia exatamente tudo.

Vale a pena adquirir o equipamento?

O equipamento custa em torno de US$ 100 mil, e o investimento só vale a pena se houver uso recorrente. Tentamos usá-lo em outra obra de retrofit, mas o cronograma era menos apertado e, como só havia a estrutura, não havia necessidade do equipamento.

Fonte: Por Gisele Cichinelli. Guia da Construção. Fevereiro 2012.

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